Antecedentes: a escolha do local

História das candidaturas do Rio

A primeira candidatura da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos foi em 1936. Na era Nuzman esta foi a terceira vez que o Rio entrou na disputa. Esta sequência de candidaturas começou em 2004 quando o prefeito da cidade era César Maia. As mesmas foram articuladas com o propósito de “fomentar”os negócios imobiliários na cidade. Mas, é lógico que os lucros surgidos a partir destas empreitadas estavam destinados a um clube seleto de “amigos”! Já os prejuízos… Bem, o objetivo de se articular uma empreitada envolvendo o poder púlico teria esta vantagem, pois obviamente caberia aos governos municipal, e quem sabe também o estadual e federal, arcar com todos os prejuízos[1]. Em 2004 a campanha custou 10 milhões de dólares e deixou dívidas até hoje (para ver a notícia  clique aqui e na busca digite olimpicos 2004).

Desde esta época o plano era tomar a área do antigo Autódromo de Jacarepaguá e entregá-la à Construtora Carvalho Hosken para construção de condomínios de luxo naquela área, pois sua localização às margens da Lagoa de Jacarepaguá era muito cobiçada. Outro fator que pesava era a próximidade ao Condomínio Rio 2, um empreendimento da Carvalho Hosken que havia sido sucesso de vendas no final dos anos 90. Esta articulação teve como patronos o Sr Carlos Arthur Nuzman presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Roberto Marinho dono das organizações Globo, João Havelange que naquela época ainda presidia a FIFA e o próprio César Maia. As relações entre Carlos Carvalho e Carlos Nuzman presidente do COB eram de notória camaradagem. Apesar da candidatura não ter vingado àquela época, o plano dos “amigos” não saiu de pauta e novas candidaturas e tentativas vieram. Existe um vídeo no youtube em que César Maia conta como isto aconteceu.

Tendo nas mãos um poderoso meio de comunicação como a Rede Globo, não era difícil convencer a opinião pública que sediar os Jogos olímpicos era uma empreitada que faria muito bem a auto estima do Brasil[2]. Até que finalmente surgiu como prêmio de consolação a oportunidade de sediar o PAN 2007.

Desde então, o “Plano” começou a tormar forma e as verdadeiras intenções a ficarem cristalinas.

Nesta época o automobilismo carioca atravessava uma crise administrativa e o Autódromo de Jacarepaguá passou a ser uma pedra no sapato do Prefeito que conseguiu em suas duas gestões acabar com três eventos internacionais de grande importância para a sustentação do mesmo: o GP de Fórmula 1, o GP de Motovelocidade e a Fórmula Indy. Assim, com a ajuda do principal meio de comunicação do país não foi difícil convencer à opinião pública da necessidade da demolição do Autódromo de Jacarepaguá para dar lugar a uma Arena Poliesportiva, a um Parque Aquático e a um Velódromo, necessários para realização do Pan de 2007.

antes da obra
Autódromo antes das obras para o PAN 2007.

A foto acima mostra o Autódromo antes da demolição do circuito norte. Reparem na quantidade de área verde adjacente ao circuito e na existência de vegetação nativa, manguezal internamente.

Logicamente houve protesto por parte da CBA, a Confederação Brasileira de Automobilismo presidida à época pelo Sr Paulo Scaglione que impetrou ação judicial com o propósito de impedir este desvario. Foram cerca de dois anos de brigas judiciais e bate bocas acalorados, a maioria dos blogs automobilísticos defendiam pela Internet ardorosamente a permanência do Autódromo de Jacarepaguá. Até que finalmente houve um acordo entre a CBA e a Prefeitura de demolir parcialmente o autódromo para construção destes equipamentos.

A sucessão de fatos que aconteceram a partir da autorização para demolição do circuito norte da pista do Autódromo de Jacarepaguá foi muito rápida e cruel. Ninguém conseguia responder como se aprovava a mutilação de um circuito palco de tantos eventos internacionais históricos para realizar um evento que nem era tão internacional assim e que iria durar apenas uma quinzena? Foi a primeira vitória para o maquievélico “Plano dos Amigos” que alcançara parcialmente seu objetivo!

1.2
Autódromo após a demolição do circuito norte.

Assim, destruiu-se uma parte da história do automobilismo brasileiro, não apenas com o aval da opinião pública, mas o que é muito mais grave: com dinheiro público! Numa articulação ardilosa, Carlos Nuzman e Cesar Maia trataram de impingir a co-responsabilidade da organização dos Jogos Panamericanos 2007 também aos governos Estadual e Federal que tiveram que arcar com os custos dos equipamenteos esportivos a serem construídos. É lógico que todos os orçamentos previstos estouraram, a sede das construtoras foi grande. Foi na gestão deste Prefeito que ficaram notórias as Parcerias Público Privadas que na verdade são uma maquiagem para institucionalizar que poder público pode dispor não apenas de dinheiro, mas também passar terras públicas às mãos da iniciativa privada sem licitação. A minuta do contrato da PPP do Parque Olímpico do Rio de Janeiro foi gestada para favorecer inicialmente à Construtora Carvalho Hoskem que por total falta de know how em realizar obras deste porte teve a adesão mais tarde de suas parceiras Odebrecht e Andrade Gutierrez.

Já Nuzman conhecido por seu oportunismo, não tinha nenhuma proximidade com o Governo Federal, aproveitou para se aproximar o máximo, pois pretendia no futuro, um cartada mais ousada.

Desde então foi montada  uma ampla estratégia de marketing para convencer o COI, o povo e o governo brasileiro que este evento traria benefícios para a cidade e para o Brasil. Mas, esta tarefa não seria fácil. Diversos setores da sociedade civil questionaram a falta de transparência das ações empreendidas para realização do mesmo em prejuízo de investimentos em necessidades básicas do povo brasileiro, como Saúde, Educação e Transporte. Após a realização Copa de 2014 no Brasil ficou muito claro que os supostos benefícios só atingem um determinado cartel do empresariado da área de construção civil.

Assim, desde junho de 2013 os Megaeventos tem sido alvo de protestos, no início apenas uma parcela da população mostrou descontentamento, especificamente em relação ao percurso da linha 4 do metrô, à reforma do Maracanã e à destruição do Museu do Índio. Esse clamor foi crescendo a partir junho de 2013 as grandes manifestações se estenderam para São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre.

Toda a vibração da vitória da candidatura do Rio foi aos poucos sendo transformada em pesadelo para alguns setores da população carioca. O ano de 2013 no Rio de Janeiro foi palco de manifestações quase que diárias e grande parte delas tinha como alvo os gastos dos Megaeventos em comparação com a precariedade de setores básicos.

São as consequências de um projeto que não foi discutido com a  sociedade e que foi gestado pelo COB (Nuzman) e pela Prefeitura do Rio que contrataram  marketeiros da Fundação Getúlio Vargas para dar apoio técnico. E hoje, mesmo diante das insatisfações, parece que a  intenção continua sendo não discutir com a população o que virá daqui para frente.

[1] Os custos da candidatura de 2004 não foram totalmente solucionados segundo relatório do TCU que cobra a responsabilidade do COB no empreendimento.

[2] Naquela época não se sabia ainda a contrapartida que as organizações Globo receberiam em troca disto, além dos direitos de transmissão. Nos próximos capítulos os leitores tomarão conhecimento do que estava reservado para esta emissora.

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